Depressivas. Eu já tinha dito aqui sobre os churrascos alemães, que não são lá “essas coisas” nos olhos de qualquer brasileiro, e para piorar um pitico essa imagem, sabado fui numa “festa” alemã. Ai meu Pai, senta que lá vem história (verídica!) …
Bom, pra começar recebi o convite para tal festa no dia 26 de Junho. Isso, JuNHO para uma festa em Agosto. Habitue-se querido(a) leitor(a), nossos amigos germânicos são um treco no que diz respeito às suas agendas. Eles podem não tomar banho todos os dias, mas as agendas … ahhhh, isso eles lêem diariamente. Lêem, anotam, calculam e preparam seus eventos. Alguns eletronicamente através de Apps que lotam qualquer webstore, outros usam o calendário do celular, computador, o que seja. Os mais convencionais ou vintage, preferem suas agendinhas, fofas, de papel, no entanto todos os alemães (TODOS) fazem uso de alguma agenda. Até aí, tudo bem. Eu não tenho mesmo mais idade pra sair por aí, sem nada programado mesmo, então pra mim toda esta organização alemã é super legal. O que não é lá muito legal é … a festa em si … mas vamos pelo começo:
Sabadão me despeço cedo do marido que vai junto com o coral cantar num evento na Bavária, e por isso passará o sábado e a manhã de domingo fora. Me restou ir a festa sozinha ou com uma amiga alemã. Escolhi a segunda opção e lá fomos nós. De cabelo arrumado, maquiada e de blusa nova, chego na estação de metrô que combinamos de nos encontrar. Ela estava de cabelo preso, sem nem um rímel e de casaco de moletom. Meu primeiro pensamento: “Putz grila, será que eu me arrumei de mais?!”.
Depois de algum esforço (a linha 2 do metrô berlinense está em obras e tivemos que fazer baldeações que nem tínhamos calculado, o que nos deu a leve sensação de estarmos meio perdidinhas, hehe; Isso sem contar que nenhuma de nós duas, visitamos o bairro onde a festa aconteceu, com freqüência, logo, nada nos era comum ou conhecido.) chegamos ao prédio, localizado no bairro de Neukölln. Um senhor, sentado numa cadeira na calçada em frente a porta de entrada do prédio, já nos avisa que o prédio é cheio de histórias, e ocupa uns 20 minutos (como se a baldeação e a perdidisse já não nos tivesse atrapalhado) contado que o edifício foi derrubado por um prédio vizinho, que foi atingido por uma bomba durante a guerra, e isso desestruturou todo o prédio, derrubando-o em questão de minutos. “Ok, mas a festa ainda tá rolando, né?!”. Sem entender minha piadinha (tosca), ele puxa a cadeira de lado, e entramos.
Ok, agora qual porta é?! Aqui em Berlin os apartamentos são identificados pelo sobrenome dos ocupantes de cada um, ao invés de um número na porta, ou seja àquele negócio de “Rua Fulano de Tal, número 120, apartamento 3“, não existe na terra do chucrute. Aqui é “Fulano de Talstraße, 120, apartamento Weidler“. Uma beleza quando você é convidado(a) para uma festa de quem acabou de se mudar, que de tão recente não tem nem o nome na porta do apartamento. Sobe um, dois, três, quatro andares. Nada. Minha chapinha querendo ir pro saco e meu saco ficando cheio … é um tal de colar orelha na porta de todos (TODOS) os apartamentos para “sentir o clima de festa“, antes de tocar a campainha errada. Obvio que tocamos. Um tiozinho, absurdamente sem noção, abre a porta de cueca e chinelo. Tudo o que eu queria depois de me incomodar com a minha maquiagem e cabelo, me perder no metrô, ouvir uma história bizarra sobre um prédio que pode ou não cair a qualquer momento, era subir andares como uma barata tonta para tocar a campainha errada E ver um tio barrigudo só de cuecas. (NOT!!) Obrigada Murphy por mais esta demonstração de carinho. No entanto a versão naked do Seu Barriga, nos indica a porta correta, e lá fomos nós entrar na festa.
Alguém que eu nunca tinha visto antes (ou seja, não era o meu amigo, morador do apartamento) me abre a porta e diz meio bêbado: “Ó, o sapato e bolsas você que escolhe se usa ou não, ali no chão …”. Hmm, ok, ele estava um pouquinho mais do que “meio bêbado“, mas acho que deu pra entender, né. Não, ok, eu explico, aqui para entrar na casa das pessoas você tira o sapato e usa um chinelo ou fica descalça(o) enquanto faz sua visita. Não é educado manter seu sapato, sujo da rua, na casa de alguém por mais gigantesco que seja o seu chulé. Hmm, talvez isso aqui ajude . Logo, no hall de entrada do apartamento tinham algumas bolsas no chão misturadas com sapatos, meias, casacos e echarpes, de todas as outras pessoas presentes na festa, o que eu adoro chamar de “tudojüntountalagen“.
Do final do hall dava para ter uma visão geral dos cômodos principais da casa (sala de jantar/cozinha e sala de estar/visitas) e essa visão geral, leitores, nada mais descreveria a não ser o doce Renato no verso, “festa estranha, com gente esquisita …”. A maioria das meninas vestindo calça legging por baixo de saias, nem tão curtas assim. Eu devo confessar que eu acho super fofo usar meia-calça de fio grosso por baixo de saias, acho que dá um ar blasé e chic, mas … geralmente só vê este tipo de vestimenta durante o inverno, quando rola a vontade usar saias mas a neve (àquela malvada) não deixa. E outra, esta foi a primeira vez que eu vi “legging” ao invés de meia-calça. Legging daquelas que acabam uns 4 dedos abaixo do joelho e que a gente (paulista) usa pra ir pra academia e/ou fazer faxina, não àquelas leggings que vão até o tornozelo e nós (brazucas) usamos embaixo da calça jeans, no inverno. Ah sim, e maquiagem. Mas muuuuita maquiagem. Imagine assim … hmm … a mesma quantidade que o Bozo usava, se bem que não na mesma distribuição, nem cores. Sombra, muita sombra nos olhos, e pó, mas muuuuuito pó. Logo, eu, com meu combo rímel+base+corretivo, não me sentia tão arrumada.
Do lado de uma das moças de legging extremamente pintada, estava uma das moradoras da casa, minha amiga Sue, alemã, 28 anos, recém chegada de uma pós-graduação de 3 anos, em Dublin. Usando calça de moletom, camiseta do David Bowie (ponto pra ela) chinelo de dedo (Havainas) E meia (perdeu o ponto), ela vem nos “receber” e apresentar o apartamento. Cozinha, sala, banheiro, varanda, quarto … ela abre o armário cheio de camisetas de bandas antigas (20 pontos), de produtos com insetos dentro (de pirulito a grampeador), que segundo ela é “costume em Dublin“. Eu nunca ouvi falar nisso, e depois de ver que ela pagou em euros por um vidro fechado de molho de tomate com uma barata dentro, decidi não comer nada na festa (perde uns 50 pontos).
Decidimos (minha amiga alemã e eu) nos sentar no sofá e “fazer sala” por uma hora ou duas. Um guri de uns 14 anos (juro!) veio me perguntar se eu poderia fazer caipirinha, já que eu sou brasileira. Tá, nem vamos comentar sobre este assunto, vamos passar para a parte da encrenca. Guri me traz, no sofá, uma garrafa de Pitú (que em Berlin é conhecidíssima, e vende – atenção cachaceiros – em qualquer supermercado berlinense.), limão amarelo , açúcar mascavo e duas facas de manteiga (sem corte). Bato nele agora ou quando atingir a maioridade?! Levantei, carregando os “artefatos” e me dirigi, pacientemente (juro) até a pia. “Com licença, alguém sabe onde tem açúcar regular? Eu preciso pra fazer a caipirinha …”. BUUUUUM!! O mundo acabou. Uma nuvem escura tomou conta da festa, pausou a música, apagou todos os cigarros (aliás, que coisa mais feia fumar dentro de apartamento dos outros, hein amigos fumantes?! Eu sei que é chato, e que todo mundo te enche o saco, e que você está super “certo” em fazer uso do SEU vício em local coabitado por OUTRAS pessoas que não fumam, mas poxa, colega, bora fumar somente no SEU recinto?! É mais legal e vai acabar com a enchição de saco alheia, juro!). A impressão era de que as minhas palavras trouxeram a praga apocalíptica que acabou em segundos com a festa.
“Mas você não usa açúcar mascavo pra fazer caipirinha?!”. Eu quero saber quem foi o sujo-malfeitor que inventou esta asneira para nossos amigos gringos. “Fofa, açúcar mascavo, no Brasil, é caro. Ninguém compra … a gente usa açúcar refinado mesmo, branquinho …”, respondi eu, para a anfitriã. BUUUUM. Mais um meteoro caiu na festa já infestada pela praga desta brazuca que vos escreve. “Ah, mas você não faz a menor idéia de como se faz uma caipirinha, então …”. Um alemão, uns 20 metros de altura, que de tão branco quase fiquei cega, me disse essa frase e saiu ileso. “É, amigo, EU, que sou brasileira não sei fazer caipirinha, você que é alemão nunca nem tomou uma verdadeira, sabe. Faz favor pra você mesmo, volta pro seu flat na rua européia em que você vive, faz uma malinha rápida, não esquece o laptop, compra uma passagem em euros pra qualquer praia do Brasil-Brasileiro, senta lá e espera por uma caipirinha com açúcar mascavo dentro … senta … Mas, senta mesmo, que esses cambitinho que cê tem aí, vão ficar é cansado de esperar.”. Ok, ele não saiu tão ileso assim porque SIM eu dei tal resposta (AWeidler perde a finness, às vezes), mas né … gente … vamos combinar que gringo querendo ensinar brazuca como se faz caipirinha, deveria ser motivo de prisão.
Enfim, faço a caipira, o povo toma, uma, duas, três, e lá vão querer me escravizar na produção. Na, não, ensinei, agora se vira. Pitú acaba e o povo olha pra mim com cara de “como assim você não anda com cachaça na bolsa? Pensei que era brasileira …” e pra mim é o fim da festa. Nada celebrativa vou em direção a minha bolsa e a meu sapatos. Pô, eu nunca fui na casa de um e pedi pra comer chucrute. Muito menos tentei ensinar como é que faz. Muuuito menos olhei com cara de “cadê o chucrute” para algum deles. Acho ridículo essa – entre tantas outras – imagem que gringos tem dos brasileiros. Vocês já leram isso ?! Ok, está em inglês, mas é uma análise impressa no dia 13 de Agosto, no jornal The New York Times, sobre a sempre crescente economia brasileira, que informa ao restante do mundo que nós não só não caímos na tal crise de 2008, como também estamos empregando gringos, enquanto eles contam moedinhas no país de origem (chupa gringo), reportagem que vale a pena a tradução, faça. Dias atrás o assunto geral eram os ataques em Londres e eu me meti no meio de uma dessas infinitas conversas sobre “muvuca” e disse: “Olha, o protesto iniciou pacífico, e tinha como tema a morte injusta de um cidadão londrino, que foi causada pela polícia. O que acontece agora, são saques e depredação feito por marginais que se aproveitaram da mobilização que o protesto – até então pacífico – trouxe e passaram a vandalizar, roubar, matar, e todas as outras atrocidades que resultam as notícias. Protestos podem sim mudar uma atitute, diversas mentes, até uma nação …”. Aí um alemão besta (se bem que, nem todos são bestas e nem todos bestas são alemães) vira pra mim e diz: “Não existe protesto pacífico. Se é protesto, não é pacífico. E nunca, na história da humanidade um protesto teve efeito numa nação …”. Bati o pau na mesa (sim, porque chega uma chora que a sapatilha Louis Vuitton sai do pé, e a gente – moça fina – precisa mostrar o tamanho do pau brasileiro, que né, além de bonito É grande!) e leitores(as), sentei uma aula de história de quase duas horas na cara do gringo-bobo sobre a Ditadura Militar Brasileira. (chupa gringo part II).
Ok, vamos voltar para o assunto da festa. Basicamente foi isso … Sério. Não tinha ninguém dançando juntinho, nem separado. Tinha música de fundo só na cozinha e no hall, porque na sala era onde a tv estava ligada, e alemão se reúne na casa dos outros com um pacote de chips, uma garrafa de cerveja e chama isso de “festa“. Não tinha nada muito o que se fazer … alguém milagrosamente inicia um assunto, mas quando acaba, fica sem graça de emendar um outro e geralmente é aí que um grupinho se dispersa. Raramente alguém quer ser o primeiro a falar, puxar papo ou conversas com quem não conhece. Ninguém oferece bebida, nem muito menos faz batidas (ôôô saudades … ) no liquidificador (aliás, alguém aí tem um liqüidificador? Meio raro nos lares alemães, né não …) e sai pela festa oferecendo. Não tem muitos petiscos/salgadinhos espalhados pela casa. Geralmente é só na cozinha, e o “cada um traz sua própria comida” é o que comanda a “festa“. Não tem àquele negócio de dividir, sabe … por mais que você traga sua própria feijoada para uma festa alemã, prepare-se para comê-la sozinha(o), porque raramente alguém vai te oferecer a própria comida, ou pedir um pouco da sua. Também não rola àquela mesa farta com os pratos do cada um trouxe o seu, salada de maionese da sua tia, pudim de doce-de-leite da sua avó, essas coisas por aqui não existem … Parece que ninguém prepara um prato de salgados pra levar numa festa e deixa na mesa pra todo mundo comer e isso … é … meio triste, meio depressivo, vocês não acham? Eu acho …
Enfim, sai da festa meio chateada por tudo o que aconteceu e não via a hora de chegar em casa, colocar meu pijama e festejar com a minha família no Skype todas as festas que – realmente foram festas – tive na vida. Lembrei que não foi a primeira vez (primeiro link, no primeiro parágrafo) que estive presente numa festa alemã, e acho que quase fui convencida pela generosidade da minha avó a não dar o braço a torcer e ainda frequentar uma ou duas festas alemã, para tentar mudar esta opinião triste sobre o que deveriam ser celebrações. Sinceramente não quero mesmo ficar com essa impressão ruim que tenho até então … Inclusive, se alguém tiver boas histórias, favor mandar por email, comentários, Facebook, SMS, sinal de fumaça, o que for … Mas não vale as histórias cheias de brazucas presentes ou na casa de algum brasileiro(a), porque aí né, vai ser uma festa brazuca, não germânica.
Beijos pro cês, vou esperar os contos. Ou uma próxima … hmm … festa.